25 mar 2019

Se a resposta for “não”, a chance de ficar pelo meio do caminho é enorme. Palavra de João Kepler, investidor anjo que participa em mais de 400 startups e é reconhecido como um dos conferencistas mais sintonizados com inovação e convergência digital do Brasil

POR TARCISIO ALVES
REDATOR E COPYWRITER

Caso você tenha alguma familiaridade com o segmento de startups, provavelmente já ouviu falar de João Kepler. Lead partner da Bossa Nova Investimentos, diretor da Fiesp e premiado como melhor Investidor Anjo do Brasil pelo Startup Awards, ele participa em mais de 400 startups e é reconhecido como um dos conferencistas mais sintonizados com inovação e convergência digital do Brasil. “Eu comecei empreendendo. Sou um empreendedor que conhece a dor de empreender”, disse ele para uma plateia de dezenas de empreendedores durante o seu Be Talk na be.academy — série de bate-papos que acontece periodicamente na sede da EdTech de negócios, em São Paulo.

Para quem não sabe, investidor anjo é uma pessoa física que investe em novos negócios, sobretudo em startups, tratando também de mentorar o seu desenvolvimento.

O curioso é que João Kepler tornou-se investidor anjo após uma tentativa frustrada de captar investimento para um e-commerce de venda de ingressos no qual ele próprio empreendia, o Show de Ingresso, em 2008. E, principalmente, após perceber que, tanto para obter um aporte quanto para escalar o negócio, seria preciso pivotá-lo.

Pivotar o negócio: uma necessidade constante
O termo “pivotar” (“fazer girar em volta de um pivô”, segundo o dicionário Aulete Digital) faz referência ao pivô do basquete, jogador que, quando recebe a bola, observa todas as possibilidades antes de dar sequência à jogada — mas, ao mesmo tempo, é ágil o bastante para fazer isso dentro de um certo timing.

É assim também que o empreendedor deve olhar para a sua empresa — ou para a sua carreira — e estar preparado para reinventá-la a qualquer momento, diante de circunstâncias do mercado e/ou da necessidade de atender a uma demanda do cliente que seja mais urgente e certeira (e também rentável, claro).

O termo é comum no segmento das startups porque, dadas as proporções menores desse tipo de negócio, é mais fácil (e ágil) promover mudanças e se adaptar a uma nova realidade. Mas a verdade é que esse ponto deveria ser válido também para outros tipos de negócio e até para quem está inserido no mercado de trabalho.

“Você precisa trabalhar com planejamento, mas precisa também ter um plano pronto para ser alterado a qualquer momento”, ensina Kepler. “Você tem que ter medo, mas também coragem, de fazer as coisas”, completa.

Um “não” como resposta: o começo de tudo
João Kepler aprendeu sobre a importância de pivotar um negócio após ouvir um “não” do fundo Accel, no icônico Vale do Silício, nos EUA. Porque, juntamente com a negativa, ouviu também alguns conselhos que mudaram a sua forma de enxergar o mundo dos negócios desde então. Entre elas: “Você tem gorduras estruturais”; “Você não trabalha em um modelo enxuto”; “Você não é escalável”…

Em um primeiro momento, ele não entendeu o porquê e tentou argumentar: “Mas eu sou um e-commerce, já sou digital!”. “Sim”, ponderou o seu interlocutor, “mas você precisa transformar a sua empresa numa plataforma de ingressos”. E cravou: “Deixe de ser um e-commerce que vende direto ao consumidor final e venda a sua tecnologia para outras empresas iguais à sua”.

Como se vê, pivotar o negócio pode envolver uma completa mudança de rumo e, essencialmente, de mindset. A primeira lição: estar na internet não significa ser e agir de forma digital; a segunda: em um mundo VUCA, repleto de incertezas, uma solução que você traga pode ser muito mais útil (e lucrativo) que seu produto ou serviço e, ainda por cima, ajudar outros empreendedores a resolver problemas.

Daí a necessidade de, antes de qualquer coisa, transformar seu negócio numa startup. Foi a partir disso que João Kepler entendeu por que algumas empresas recebem investimentos enquanto outras agonizam em busca de capital (geralmente, até fecharem as portas).

De fato, fazendo uma análise fria da Show de Ingresso, as críticas que João Kepler ouviu dos americanos, lá atrás, tinham total fundamento. A estrutura da empresa era cara, envolvendo três escritórios e 40 colaboradores, quando poderia funcionar com apenas quatro funcionários em uma única sala. Foi o que aconteceu e permitiu que a plataforma durasse “anos e anos”, nas palavras do empreendedor.

Retorno de 4 vezes o valor investido em menos de 1 ano
Porém, o mais importante nessa história foi a mudança de mentalidade. Foi aí que João Kepler se transformou em um investidor anjo. Até porque, fora convencido por investidores americanos a colocar dinheiro em uma startup que ele nem sequer conhecia, mas que, segundo eles, ao contrário da sua empresa na época, já estava no caminho certo, no sentido de ser um negócio repetível e escalável.

Os conselheiros não estavam errados. Foram necessários apenas 10 meses (ou seja, menos de um ano) para que os US$ 25 mil investidos por Kepler retornassem para o bolso dele, só que numa quantia quatro vezes maior: “Vendi minha participação na startup por US$ 100 mil”, orgulha-se ele, sem esconder o sorriso.

Ali, João Kepler viu, na prática, como o segmento de startups funcionava — ou, no caso do Brasil, deveria funcionar. E foi por causa dessa experiência extremamente positiva e transformadora que, desde então, tem se dedicado à tarefa de “entender de gente e investir em gente”. “Eu faço investimento em pessoas; o negócio vem depois”, justifica.

Em 2014, ao lado de Pierre Schurmann, fundou a Bossa Nova Investimentos e, pouco tempo depois, uma das startups sob o chapéu da companhia foi vendida por 52 vezes o valor inicial — nada menos que R$ 5,2 milhões. A lição de casa estava feita.

Tirando empresas do “vale da morte”
Em comum acordo, os sócios depositaram o dinheiro no caixa da Bossa Nova, com o objetivo de ajudar mais e mais empreendedores a operar dentro de uma estrutura que lhes permitisse obter rentabilidade e escalabilidade.

“Nós identificamos que o melhor a fazer seria ajudar empresas no ‘vale da morte’, que é quando o empreendedor está sufocado, precisando de grana para avançar”, conta Kepler. “Investir e, ainda, poder ajudar as pessoas… Não tem nada melhor”, avalia.

E assim, em vez de concentrar uma bolada de dinheiro numa só startup, a Bossa Nova Investimentos prefere fatiar o bolo e ajudar várias delas de uma só vez. “Isso é também uma forma de distribuir renda e contribuir para o desenvolvimento econômico do Brasil”, acredita Kepler.

João Kepler e Bruno Pinheiro durante Be Talk na be.academy (foto: Bruno Vinicius)

Dentro dessa visão, além de seguir com suas atividades na Bossa Nova, auxiliando empreendedores a lidar com desafios de escala, João Kepler decidiu unir esforços com o empreendedor digital Bruno Pinheiro, fundador e CEO da be.academy.

Na EdTech de negócios, o expertise de Kepler pode ser acessado por meio de dois projetos. Um deles é o Smart Money — Imersão + Mentoria, em que, durante um fim de semana (dias 18 e 19 de maio), Kepler vai ensinar sobre gestão de startups, definição de valuation e preparação de um pitch matador para a obtenção de investimento.

O outro projeto é o MBA em Marketing e Negócios Digitais, no qual João Kepler é facilitador de conteúdo na disciplina de Business Valuation. Você pode, inclusive, saber mais sobre João Kepler e sobre o que ele pensa, na websérie Empreendedores que Constroem o Amanhã, que traz os bastidores das startups de sucesso.

O caminho está aberto para quem quer aprender
“A be.academy foi o primeiro lugar onde eu me senti à vontade para falar da prática de empreender, porque, na teoria, a prática é outra”, comenta ele, destacando que seu trabalho é fazer com que mais e mais pessoas entendam que startup não é “modinha”, e sim um modelo de negócio diferenciado, que já está mudando a forma de consumir produtos e serviços, por meio de soluções inovadoras.

“Quem diria que a gente iria chamar um táxi apenas apertando um botão no celular? Ou comprar vinho e cerveja por assinatura?”, questiona João Kepler. E quem diria que, um dia, poderíamos ter acesso direto a empreendedores como João Kepler, que estão revolucionando a forma de fazer negócios, no Brasil e no mundo?

O caminho está aberto para quem quer aprender a estruturar um negócio com alto valor de mercado. Isso vale tanto para quem já tem uma empresa quanto para quem quer começar do zero ou, mesmo, intraempreender, agindo de forma estratégica dentro de uma corporação para transformar negócios e apresentar resultados concretos.

Leave your thought